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Editada pela Abril, Realidade é certamente a mais aclamada
revista brasileira de reportagens. Lançada em abril de 1966,
dois anos após o golpe militar, seguia a tendência do new
journalism norte-americano no qual o repórter procurava
vivenciar a situação e escrevia de maneira mais literária.
Era encabeçada por Paulo Patarra, redator-chefe, e Sérgio de
Souza, editor de texto, que ficariam na revista até o final de
1968, quando é decretado o AI-5, e seriam responsáveis por sua
melhor fase.
Mensal, a revista não fazia coberturas nem utilizava expedientes
comuns a periódicos mais ágeis como jornais diários ou revistas
semanais. Realidade mergulhava em reportagens de fôlego e
privilegiava matérias sobre comportamento, saúde, ciência e
religião, sempre provocando o debate sobre temas tabus.
No primeiro número, trazia na capa o jogador Pelé sorrindo e
tendo na cabeça o busby usado pelos guardas da Rainha Elizabeth.
Era uma alusão à possibilidade (não realizada) de o Brasil vir a
ser tri-campeão na Copa da Inglaterra, que aconteceria naquele
ano.
Mesmo com um curto período de vida, Realidade foi um divisor de
águas na imprensa brasileira, rompeu com todos os padrões
estruturais, aboliu o jornalismo tradicional questionando o que
não era questionado, dizendo o que não era dito de maneira sutil
capaz de fazer o publico ler entre as entrelinhas e raciocinar
por si próprio. Fazendo o oposto da imprensa tradicional que
apenas publicava noticias baseados em senso comum, enquanto em
Realidade eram publicadas denuncias que geravam mobilização
social.
Eu fui leitora de Realidade,na época nos estávamos precisando
quebrar tabus e tomar conhecimento da vida,os nossos pais vindos
da década de 20 ou 30 não tinham diálogo conosco.Fui criada
ainda com a seguinte frase:- Crianças fora da sala,a conversa é
para adultos.Com esta filosofia de educação quando adolescente e
jovem não temos mais com quem conversar.Por isso eu li muito
desde os 11 anos,comecei lendo o jornal do meu tio ,no dia
seguinte,é claro,porque no dia não podia mexer para não tirar as
folhas de ordem,acredite se quiser.....Não tinha livros em minha
residência,casa de portugueses garotas precisava aprender a
cozinhar para casar.Quando terminei o primário fui fazer o
Admissão para o ginasial,este curso foi cortado do ensino
atual,na relação dos livros veio um dicionário,é claro,teria que
ter.Vocês nunca viram uma criança(1954,eu tinha 10 anos)ficar
feliz da vida quando vi aquele livro bem grosso.Eu abria as
páginas sentava debaixo de uma amendoeira e lia o DICIONÁRIO.Eu
até hoje acho incrível o que eu fazia...
Quando em 1966 chegou as bancas Realidade,eu já trabalhava e
comprava sempre a revista e comprei muitos livros para que um
dia se tivesse filhos eles teriam livros para ler.Aconteceu,tive
os filhos mas eles não leram como eu queria que lessem... |